Quando o rádio se cala, Bagé inteira escuta o silêncio
Em exatos dois meses, venho novamente pedir licença aos meus leitores para prestar uma humilde, porém sentida homenagem a um amigo querido que nos deixou precocemente. A quinta-feira, dia 27, trouxe perplexidade à população bageense e, principalmente, aos familiares, amigos e colegas da imprensa, que receberam incrédulos a notícia do falecimento de Duda Burns.
Confesso que, quando recebi a notícia, não quis acreditar. Talvez por isso tenha procurado confirmar sua veracidade com mais de duas fontes. Eu precisava ter certeza. No fundo, porém, talvez estivesse apenas tentando ganhar alguns minutos antes de aceitar aquilo que parecia impossível: Duda havia partido.
Tive o privilégio de conhecê-lo ainda criança, nos corredores da Agência de Publicidade Probal, onde seu pai, o saudoso Roberto Burns, era sócio. E aqui faço uma pausa para lembrar também daquele que foi, sem dúvida alguma, um dos melhores locutores que conheci em minha trajetória no rádio.
A vida, como costuma fazer, tratou de nos levar por caminhos diferentes. Passaram-se mais de quarenta anos até que o destino nos colocasse novamente frente a frente. E foi bonito esse reencontro. Reatamos uma amizade que o tempo jamais havia apagado completamente.
Depois veio o rádio. Recebi de Duda o convite para dividir com ele o espaço do programa Redação Pop Rock, e ali tivemos a oportunidade de fazer aquilo que mais gostávamos: falar de futebol. E como falávamos!
Tivemos embates maravilhosos, daqueles que só acontecem quando existe respeito, admiração e, acima de tudo, paixão pelo que se faz. Duda defendia com orgulho o futebol bageense e fazia questão de valorizar nossos clubes, nossos atletas e nossa história.
Também tinha o talento de abrir os microfones para grandes nomes do jornalismo esportivo. Jornalistas como Paulo Brito, Gustavo Manhago, Lauro Quadros e tantos outros cronistas que, de alguma maneira, também tinham carinho e admiração por Duda.
Durante anos, muitos bageenses saíram de casa para trabalhar ouvindo aquela voz imponente no rádio. Uma voz que entrava pelas portas das casas, pelas janelas dos carros, pelas oficinas, pelos estabelecimentos comerciais e acompanhava a cidade em seus dias bons e ruins.
Por isso, sua partida não representa apenas a perda de um amigo, de um colega ou de um profissional da comunicação. Representa a perda de uma parte da memória do rádio bageense. E o rádio, sabemos, é feito de vozes. Algumas passam. Outras permanecem.
A voz de Duda permanecerá. Permanecerá nas lembranças daqueles que trabalharam ao seu lado, daqueles que foram seus ouvintes, daqueles que discutiram futebol com ele, daqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua amizade e, principalmente, daqueles que o amaram.
Hoje, não quero falar apenas da tristeza da despedida. Quero falar da gratidão.
Gratidão por ter conhecido Duda ainda menino. Gratidão pelo reencontro depois de tantos anos. Gratidão pelas conversas, pelas brincadeiras, pelas discussões futebolísticas, pelos momentos vividos diante dos microfones e por ter podido chamar novamente de amigo alguém que a vida havia colocado em meu caminho há tantas décadas. A morte nos rouba a presença, mas não consegue apagar as histórias que construímos. E as histórias de Duda Burns continuarão sendo contadas.
Meu amado amigo, o rádio bageense ficará com uma lacuna insubstituível. O futebol perderá um apaixonado defensor de suas histórias. Nós, seus amigos e colegas, perderemos a convivência.
Mas Bagé ganhará uma memória eterna. E quero acreditar que, lá no Oriente Eterno, onde um dia todos nós nos encontraremos, existe alguém esperando por ti. Talvez teu amado pai, Roberto Burns, esteja de braços abertos para receber novamente o filho. E quem sabe, juntos, vocês possam montar uma nova emissora. Uma rádio sem fronteiras, sem despedidas e sem tristeza.
A Rádio Celestial. E lá, entre uma notícia e outra, entre uma lembrança do futebol de Bagé e outra, vocês possam continuar fazendo aquilo que sempre fizeram tão bem: levando através da voz mensagens de paz, amor, amizade e esperança.
Aqui, Duda, ficam nossas lágrimas. Ficam nossas lembranças. Fica a saudade. E fica, acima de tudo, a certeza de que algumas pessoas partem cedo demais, mas jamais partem por inteiro. Descanse em paz, meu amado amigo Duda Burns. O rádio continuará falando. O futebol continuará sendo jogado. Bagé continuará seguindo seu caminho. Mas nunca mais será exatamente a mesma sem a tua voz.
Que o Grande Arquiteto do Universo te receba em seus braços e que, no Oriente Eterno, a tua voz continue levando aquilo que sempre levaste por aqui: informação, futebol, amizade e esperança.
Vai em paz, Duda Burns.

