Os dez putos de Bagé
Há uns 12 anos fiquei bastante agastado quando soube que o tradicionalista, antropólogo, radialista, e escritor Antônio Augusto Fagundes havia entregue a uma editora do interior um livro chamado “Os putos de Bagé”. Não pelo título em si, mas pela suposição de que fosse algo ofensivo à cidade ou sua população. Naquela época tivera conversas com Nico que encontrava às vezes no Instituto Histórico em pesquisas para alavancar algumas de suas obras de caráter histórico-nativista, além de assisti-lo na televisão, onde dava continuidade a um programa gauchesco iniciado por seu irmão Darcy. Também convivia com Bagre Fagundes, de que fora companheiro no Conselho do Internacional e no Grupo Inter Grande. Lembro que, certa vez, conversava com ele – aliás, pessoa muito alegre e espirituosa - sobre o Hino Alegretense. Ao saber de minha “aldeia tolstoiana” narrou que um dos versos do Canto fora concebido em viagem de ida (ou vinda?) para Bagé. Recordo que na arenga referia ele o fato ter-se dado na presença do saudoso Diogo Madruga Duarte. Devia ter esclarecido melhor, mas no instante preferia apenas o registro do depoimento. Talvez um de seus filhos possa esclarecer.
A propósito recordo outro fato ligado ao Hino Alegretense. Em determinado domingo fora à missa na Igreja São José, como hábito. Sucede que, diversamente do comum, de depois da cerimônia, os presentes foram convidados para o pátio do templo, onde aconteceu pequena apresentação dos Fagundes, de Borghettinho, Leonardo, entre outros. Numa folga fui até o ultimo, que sabia haver nascido na Hulha Negra, indaguei porque ele, um dos melhores intérpretes e autores do repertório gaúcho assim como os Fagundes, não escrevera ainda um Hino Bajeense, em honra à cidade. De poucas palavras, apenas replicou: “Ela não merece”. Surpreso fui adiante, devia ter questionado o porquê. Talvez o Chacrinha, Eliezer, Severino, Cesarino, Lisandro, mestre Eron ou alguém saiba. Em 2012 faleceu Nico Fagundes, aos oitenta anos.
Numa Feira do Livro seguinte deparei com um estande, onde estava a viúva Ana Lúcia Piagetti Fagundes e depois de algumas conversas confessei minha decepção com a obra dos putos. Muito culta e simpática disse que eu estava equivocado, que eram contos simples, sem qualquer sentido de devassidão ou desapreço a Bagé. Agora anos passados, resolvi retomar a investigação. E fiquei ciente que o livro disputara (que verbo adequados) o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria contos. Que são oito, antes publicados pela Editora Gazeta, de Santa Cruz.
“Não há como mergulhar no universo da obra sem perceber de muito perto as referências ao Rio Grande do Sul, seja pela entonação, vocabulário ou pelas indicações histórias”, diz o comentário na internet. (Acabo de ligar para algumas editoras. Uma dela disse que o livro “foi censurado”, “não há no comércio, apenas com a viúva”. Hoje à tarde vou sair à cata. Então, por ora fico devendo conclusão).
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Puto. Do latim “putuu”, ou seja, menino. Diz-se do indivíduo devasso, corrompido, dissoluto. Seguido de um substantivo, às vezes com ele a intercalação da preposição “de”, seja de artigo ou conectado com ele. Corresponde a uma qualificativa depreciativa de coisa ou pessoa, designada pelo substantivo, “puto vintém”, “escrever um puto romance”, “ o puto do menino foi embora”. Pederasta passivo. Indivíduo devasso, corrompido. “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, de Aurélio Buarque de Holanda, Editora Nova Fronteira, Rio, 1975. Ou quase uma página do verbete (pp. 2338-39), do “ Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” Editora Objetiva, 2001, Rio de Janeiro, se tiver paciência...

