Minuano Conecta
Arte cemiterial
A lenda da coruja e a serpente do Cemitério da Santa Casa de Bagé
Clarisse Ismério
Historiadora, Doutora em História do Brasil
Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp
Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp
Os cemitérios costumam representar a imagem da desolação, da perda e do luto. Contudo, quando observamos mais atentamente seu acervo escultórico, deparamo-nos com um universo de símbolos, histórias, mitos e lendas.
Um desses túmulos, presente no Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, registra a tragédia ocorrida com uma criança. Trata-se do túmulo de José Paixão Côrtes, que narra a morte prematura do menino Euclides E. Felipe, o qual, ao enfiar a mão em uma toca de corujas, foi surpreendido por uma serpente. Esse gesto inocente lhe custou a vida. No túmulo, encontram-se entalhadas a coruja e a serpente, guardadas por representações alegóricas da morte, da saudade e da figura orante.
A coruja é uma ave de rapina noturna que possui diferentes significados nas mitologias. Na Grécia Antiga, era um dos símbolos da deusa Atena, caracterizando o pensamento racional que se sobressai às trevas. Nos mitos indo-americanos, representa a morte e atua como guardiã dos cemitérios. Há também mitos e lendas que a denominam ave de mau agouro. No imaginário popular brasileiro, a coruja suindara é chamada de “rasga-mortalha”, pois, ao voar sobre as casas, solta um grito agudo que soa como pano rasgado, anunciando doença grave ou morte iminente. Além disso, é associada à figura folclórica amazonense da Matinta Pereira, uma bruxa que assume a forma da ave durante a noite e assombra os moradores da região.
{AD-READ-3}A serpente também possui múltiplos significados, representando renascimento, cura, sabedoria e transformação, em razão da troca de pele e de sua ligação com Asclépio, deus da medicina. Está presente, ainda, no caduceu de Hermes (Mercúrio), deus do comércio, no qual duas serpentes entrelaçadas simbolizam a dualidade do universo — o benéfico e o maléfico, o antagonismo e o equilíbrio cósmico. Contudo, predomina, no Ocidente, a interpretação da tradição judaico-cristã, na qual a serpente está associada ao demônio, responsável pelos desmandos e sofrimentos da humanidade.
No Cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé, a coruja e a serpente representam a tragédia que passou a compor o imaginário popular: a crença de que, ao colocar a mão em uma toca de coruja, a morte é certeira, pois, na escuridão, a serpente espreita para desferir seu golpe final.

