Minuano Conecta
Uma boneca ou o deus do comércio? O que revela uma fachada em Bagé
por Viviane Becker
Clarisse Ismério
Historiadora, Doutora em História do Brasil.
Professora na EEM Dr. Carlos Antônio Kluwe e na Urcamp
Coordenadora dos Cursos de Pedagogia e História da Urcamp
Em Bagé, existiu uma tradicional loja de tecidos pertencente ao Sr. Luiz Kanaan, denominada “A Boneca”. Com o passar dos anos, embora o estabelecimento tenha encerrado suas atividades, a edificação permaneceu no imaginário coletivo da população como “Casa Boneca”.
Em uma atividade de campo realizada com um grupo de alunas, voltada à análise do patrimônio arquitetônico e de suas representações simbólicas, ao chegarmos à esquina das ruas Tupy Silveira e Presidente Vargas, uma estudante prontamente identificou o local: “Professora, esta é a Casa Boneca; tem esse nome por possuir a imagem de uma boneca no alto da porta de entrada”.
Entretanto, ao observarmos atentamente o elemento escultórico mencionado, constatou-se que a suposta “boneca” tratava-se, na realidade, da representação do deus Hermes, tradicional figura da mitologia clássica associada à proteção do comércio. A análise iconográfica evidencia características típicas dessa divindade: o torso desnudo parcialmente envolto por um manto e, em uma das mãos, um pequeno saco de moedas, símbolo recorrente em suas representações.
Hermes, na tradição grega, equivalente ao deus Mercúrio na mitologia romana, é reconhecido como o mensageiro do Olimpo e protetor dos comerciantes, sendo frequentemente associado à inteligência, à agilidade e à atividade econômica. Em outras representações, apresenta atributos como o gorro alado e o caduceu, bastão em torno do qual se entrelaçam duas serpentes, simbolizando a dualidade, o equilíbrio e a mediação entre forças opostas.
A presença de Hermes em fachadas comerciais foi recorrente no Rio Grande do Sul, especialmente em edificações urbanas vinculadas ao comércio. Em Porto Alegre podemos encontrar no prédio da loja Tumelero, na antiga sede da Prefeitura, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), no banco Safra e na antiga cervejaria Brahma (atual Shopping Total).
No caso de Bagé, a escultura de Hermes foi originalmente incorporada à fachada da antiga Casa Boneca como elemento simbólico de proteção e prosperidade comercial. Contudo, ao longo do tempo, o significado original da imagem foi sendo obscurecido, dando lugar a uma interpretação popular desvinculada de sua referência mitológica. Atualmente o prédio abriga a farmácia Panvel.
Dessa forma, a análise desse elemento arquitetônico evidencia não apenas a permanência de símbolos no espaço urbano, mas também os processos de ressignificação cultural que ocorrem ao longo do tempo. Cabe, portanto, ao olhar histórico e patrimonial, restituir sentidos, reinterpretar vestígios e promover a compreensão crítica do patrimônio cultural.

