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Colunistas

Diones Franchi

  • Jornalista e Mestre em História

O andarilho de Bagé

Em 25/05/2026 às 08:28h, por Diones Franchi

Sussurrando e caminhando surgia no horizonte um homem com aparência mediana, vestia-se com trajes gaúchos, sua pilcha era antiga. Seu rosto era suado e pálido, suas mãos eram sujas e castigadas pela lida.

Em um segundo sua mente borbulhou e, assim começou a pensar. Por todos os lugares que passava, o passado tocava sua alma, voltava depois de tanto tempo para as vestes da querência.

Então pensava: - É pelo jeito nada é como antes, por isso caminhando eu fiquei a pensar, tudo passa com o tempo. De tantos e tantos lugares é pra cá que retornei, ressecado pelo passado que as marcas me fazem pensar.

Vejo prédios nesta cidade, que um dia foram mais que uma identidade, percorreram meu coração, como se fosse a mais guapa canção.

Cheio de tanta história, é Bagé que vim visitar, o meu tempo é pouco - por isso vou lhes contar, por debaixo desse sereno, as revoluções vieram travar.

Sempre soube, que nos traços de um acampamento, aos olhos de Pedro Fagundes, tudo foi começar.

Sou um andarilho, prestes a chegar, em um passado que o futuro perde de contemplar.

Chego a Santa Tereza que foi construída pelo sonho de um homem, chamado Visconde. Com sua Charqueada, muitas famílias por aqui sustentava e tudo prosperava. Mas Visconde, partiu e, Santa Tereza se repartiu. De tudo que era mais bela, só restou à capela - Ah que tempo de outrora e ainda me lembro dessa história.

Vejo o Forte de Santa Tecla, que os portugueses em guerra, expulsaram na peleia os espanhóis. Posso ainda escutar os barulhos dos canhões, e dos tiros que consomem vidas, entre os gritos da dor, que a guerra não perdoa.

Logo parto, para minha Catedral que muito presenciei, a Revolução Federalista de Júlio de Castilhos e de Gaspar Silveira Martins.

Foi em frente à Catedral que o Cerco de 1893, começou, entre maragatos e pica paus, novamente o sangue jorrou. Era a época da degola e a tristeza novamente se fez, ecoado pelo som da liberdade do Rio Grande, que clamava. Grande Carlos Telles, que defendeu nossa Bagé, das marcas de bala, e na igreja alojava, foi um sinal da batalha que a Revolução travava.

Sigo para o Coreto e aqui, muito o povo aclamou, presidentes que o Brasil amou e odiou. Muitos comícios aqui se fizeram, entoaram o seu grito nomes como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek.

Sou de um tempo longínquo, onde o homem não levava desaforo pra casa, nem tão pouco abandonava a amada nos tempos de paz.

Veja se não me falha a memória, esse é o Palacete do Dr. Pedro Osório Filho, que muito foi importante. Reuniões secretas e mirabolantes por aqui se confirmaram entre chimangos e maragatos. Entre palavras de honra, muito se executou e a paz começou. Hoje segue revivida por tudo que já expressou, agora calo-me e lembro-me do opressor.

Andarilho que sou, chego ao museu Dom Diogo de Souza, de idealismo de Tarcísio Taborda, aqui a história de Bagé se repassa, e um pouco no passado do hospital que um dia deu asas. Mas quantos ecos importantes nas paredes se fazem delirantes. Ninguém pode escutar, mas eu sei que do pouco que vivi, sorri para guerra e cortejei a morte.

Que mudança encontro agora, vejo a Praça das Carretas abandonada na sua história. Quantas carretas puxadas a boi, aqui se encontravam, e muitos produtos carrilhavam. Era a praça comercial que os carreteiros encontravam.

A velha dinastia, de um tempo que não volta mais, pois hoje existem outras formas para comercializar o que chega e o que sai.

Por fim vou ao cemitério, rever velhos amigos que o tempo consumiu e um dia sua vida soprou. Velho General Neto que aqui descansou, também Preto Caxias que muito cuidou e Joca Tavares, um maragato que aqui ficou.

E eu ando como um vento que nunca parou, sou o que o Rio Grande do Sul, me confiou. Vivo a liberdade sobre o sonho de um novo resplendor. Essa prosa não é pra entender é pra reviver.

Vou-me embora para junto de minha prenda, pois só vim ver esta terra que muita história ficou.

Vou aos braços que o sonho perpetuou, sou um andarilho do pampa que me criou, sou um sopro que veio e ficou, sou o peão que Deus levou, sou a raiz que um dia ficou, sou o sonho que jamais acabou.

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