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Colunistas

Rodrigo Tavares

  • Escritor e advogado

O homem que se afogava e ninguém salvou

Em 29/05/2026 às 14:52h, por Rodrigo Tavares

Era fim de tarde quando o banhista entrou no mar. As águas estavam calmas, o céu limpo, nenhuma sinalização de perigo. Mas o que ele não sabia — e ninguém havia previsto — era que, por trás daquela superfície tranquila, uma corrente traiçoeira se formava. Em poucos minutos, o mar o puxou para longe da margem. Ele tentou nadar de volta, tentou manter a calma, usou toda a força que tinha. Mas quanto mais se esforçava, mais distante ficava da segurança.

Desesperado, gritou por socorro.

Na areia, os salva-vidas foram alertados. Pegaram o jet ski, apontaram na direção do homem e chegaram perto. Mas, em vez de jogar a boia ou puxá-lo, começaram a discutir. Um deles dizia que talvez ele devesse ter evitado o mar naquele horário. Outro ponderava que o resgate poderia criar precedentes. Um terceiro sugeria que era melhor esperar um pouco, ver se ele se salvava sozinho. Afinal, os custos do resgate eram altos. E assim, entre análises, prazos e cálculos, o homem seguia se afogando.

Essa história não aconteceu, mas é exatamente o que está acontecendo com o produtor rural brasileiro.

Há anos, ele mergulhou no mar da produção. Planta, colhe, cria, investe, emprega, alimenta o país. Faz tudo que se espera dele. Mas ninguém controla as correntes: a estiagem, o excesso de chuva, a queda de preços, a alta dos insumos, as dívidas que se acumulam com os anos. E agora, esse produtor está se afogando. A boia, todos sabem qual é: chama-se securitização. Não mais prorrogar a última dívida — mas refinanciar as cinco, seis últimas safras, com um prazo realista, de no mínimo vinte anos. Não é um favor. É o mínimo necessário para salvar quem segura a base da economia nacional.

Só que, como os salva-vidas da história, o governo parece hesitante. Debate, pondera, espera. Enquanto isso, o produtor afunda um pouco mais.

Há algo profundamente errado em um país que salva bancos em toda crise, mas hesita em salvar quem o alimenta. O mesmo Estado que injeta bilhões em instituições financeiras, agora mede centavos para resgatar o setor primário. Um setor que não só alimenta o Brasil, mas sustenta o PIB, gera emprego, movimenta cidades inteiras.

Securitizar não é premiar inadimplentes. É entender que ninguém atravessa um mar revolto sozinho — e que quem se arriscou a nadar por todos nós não merece afundar enquanto há jet skis parados na areia.

Porque quando o produtor rural afunda, não é só ele que se perde. É o Brasil que vai com ele.

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