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Quem tem medo de pós-modernidade?

Em 29/05/2026 às 14:51h, por Clara Silveira

Ah, doutor, como eu queria meus almoços de domingo de volta! Aqueles em que a comida era só um detalhe diante das risadas, das histórias antigas e da sensação de pertencimento. Quero de volta aquele caos familiar onde as diferenças existiam, mas ninguém tava disposto a perder um prato de lasanha por elas.

A família, que sempre foi um refúgio, um porto seguro, agora se dividiu.

Metade dos nossos, que antes se reuniam com naturalidade, hoje optam por não aparecer. Não é que estejam ausentes por algum imprevisto. Estão ausentes porque a política, essa entidade invisível e poderosa, se meteu entre nós. 

Cada um fincou pé em sua trincheira, e o que antes era laço virou abismo – um vão que, a cada dia, parece mais difícil de transpor.

De um lado, temos a esquerda pós-moderna, que desconstrói até o ar que respira – e, claro, acusa o ar de opressor. Para esse grupo, o problema é qualquer estrutura fixa, pois tudo deve ser questionado, tudo precisa ser reconstruído. Mas é uma desconstrução que, ao se tornar incessante, vai ao extremo, desfazendo laços e alienando as pessoas em pequenas bolhas onde cada um fala apenas consigo mesmo. Para eles, até um “bom dia” é uma questão política. Só que, doutor, nesse processo de desmantelar todas as estruturas, acabam criando um labirinto onde se perde o sentido de comunidade e onde a interação humana é filtrada por uma lente de suspeita e tensão. Com ardor quase messiânico, a galera do amor persegue todes “intolerantes” que não se adequarem ao dogma do momento.

Do outro lado, temos a direita – que supostamente tem horror à pós-modernidade, mas que também questiona grandes narrativas, relativiza a verdade e dá ênfase na identidade e na cultura. Nostálgica de um passado que ela mesma inventou, onde tradição era sagrada e as pessoas “sabiam o seu lugar”, a direita tenta culpar o feminismo, o movimento negro e a luta LGBT+ por todas as mazelas do presente. É curioso, porque, para o cidadão de bem, o problema do mundo é que perdemos os valores de antigamente. Mas que valores são esses? Enquanto combatem a “cultura woke”, cometem pequenas sociopatias diárias, desde o desprezo à empatia até a promoção de um cristianismo narcisista que tem fariseus por líderes religiosos.

A esquerda pós-moderna, com seu compromisso com a “desconstrução total”, e a direita pós-moderna, com seu apego a uma “tradição artificial”, acabam criando uma sociedade onde todo mundo age como se estivéssemos num tribunal, sem nunca realmente ver o outro. São pequenas transgressões diárias, atos de indiferença, momentos de incompreensão, atitudes passivo-agressivas – A dinâmica do julgamento é tão intensa que as pequenas falhas viram motivos de desumanização, enquanto, no fundo, todos se veem reféns de um sistema autofágico.

E nesse ringue pós-moderno, ninguém vê que a vida em sociedade está desmoronando sob o peso de ideias que, embora diferentes, compartilham a mesma falha: ignoram a necessidade humana de conexão, de rituais autênticos, de espaços de troca verdadeira. Ambos os lados se perderam no brilho dos próprios discursos, se esquecendo de que a base do ser humano é a relação, a empatia e o reconhecimento de que somos todos finitos e, por isso mesmo, precisamos uns dos outros.

Mea culpa. Mea máxima culpa.

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