Uma artista da crônica
Resolvi reativar minhas redes sociais, doutor. Achei que seria como abrir um álbum de fotos antigas, mas foi mais parecido com entrar numa jaula de vidro em pleno shopping center. Lá estava eu, exposta, esperando curtidas como quem espera aplausos diante de uma arte incompreendida.
E como uma coisa leva à outra (ou melhor, um like leva a uma crise), acabei lembrando daquele conto do Kafka, Um Artista da Fome. Aquela história de um sujeito que fazia jejum como espetáculo. Passava dias e dias sem comer, trancado numa jaula, até que morre de fome – e só então confessa que não jejuava por vocação, mas porque nunca tinha encontrado um alimento que realmente gostasse.
Pois bem, doutor, eu sou quase igual. Só que em vez de jejuar, eu escrevo crônicas.
O resultado é parecido. O público olha, finge interesse e depois vai embora ver vídeos de 30s no TikTok. Se o artista de Kafka tinha plateia curiosa, eu tenho amigos generosos que fingem interesse. Ele minguava num jejum silencioso, eu incho de palavras que quase ninguém lê. Um espetáculo igualmente pouco atraente.
Ainda por cima, meu espírito se vê torturado por um paradoxo. Experimento um luto profundo ao perceber que a arte da leitura já quase não desperta interesse, mas ao mesmo tempo sinto um certo desdém por aqueles que me admiram. Afinal, escrever crônicas nunca me exigiu grandes esforços – é apenas minha válvula de escape. E como aceitar aplausos por algo tão banal?
Minha tragédia está aí: viver do reconhecimento de uma plateia que, se me compreendesse de verdade, jamais me admiraria. E no fim eu fico nessa corda bamba, entre o desejo desesperado de ser reconhecida e o desprezo por uma admiração não merecida.
E mesmo assim sigo ali, de caneta na mão, esperando que alguém volte. Kafka ficaria orgulhoso, ou talvez horrorizado. O que no caso dele, dá na mesma.
E por que continuo? Porque, assim como o artista da fome, eu também nunca achei um alimento que me satisfizesse. Não me preenche a fofoca, nem a novela, nem a política gritada. Transformar o banal em filosofia de botequim é a única coisa que me sacia.
Uns fumam, outros bebem. Eu fumo, bebo e ainda por cima escrevo textos que ninguém pediu. Mas tem algo de libertador em aceitar meu fracasso como performance. Fica cada vez mais fácil rir de mim mesma. E o riso, esse sim, me alimenta.

