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Diones Franchi

  • Jornalista e Mestre em História

A charqueada

Em 29/05/2026 às 10:45h, por Diones Franchi

 

A charqueada é a área da propriedade rural em que se produz o charque. O charque é a carne salgada e seca ao sol que tem por objetivo de mantê-la própria ao consumo por mais tempo. Possui uma salga e exposição solar maior que outras carnes dessecadas, sendo empilhado como mantas em lugares secos para desidratação.

A antiga charqueada era formada por galpões cobertos, onde a carne salgada era exposta para o processo de desidratação. A indústria saladeira e o ciclo do charque no século 18 deixaram suas marcas no extremo sul do Brasil, tornando Pelotas, uma referência histórica e cultural.

No Brasil, o início da produção do charque foi no Nordeste, cuja ocupação do seu interior no fim do século XVII, depois da Guerra dos Bárbaros, se intensificou com a implantação das estâncias de gado. O charque era produzido, para a manutenção da carne. Basicamente, servia para a alimentação dos escravos que trabalhavam no Ciclo da cana-de-açúcar. No Rio Grande do Sul a charqueada criou destaque no surgimento de grandes propriedades rurais de caráter industrial.  

No século XIX, se intensificou, às margens dos arroios Pelotas, Santa Bárbara, Moreira e canal São Gonçalo. O gado, matéria-prima, era proveniente de toda a região da campanha rio-grandense, sendo fruto da multiplicação de exemplares trazidos pelos espanhóis para a Banda Oriental (Uruguai) no início do século XVII. As reses eram introduzidas em Pelotas, entrando através do Passo do Fragata e vendido na Tablada, grande local dos remates na região das Três Vendas. Toda a produção de charque - como de resto as produções mineradora e agrária da época, no Brasil, era baseada no trabalho dos escravos.

O grande motivo para a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos (1835-1845) foram as altas taxas sobre o charque, que era o principal produto do Rio Grande do Sul na época, criando, uma concorrência desleal com o charque importado do Uruguai e da Argentina.

Em Bagé, a Companhia Industrial Bajeense foi a primeira charqueada fundada em 10 de outubro de 1891. Existiam também outras charqueadas, mas um dos grandes nomes das charqueadas na região, foi o Visconde Antônio de Ribeiro Magalhães, que implantou sua principal charqueada a margem da estrada de ferro que vai de Bagé para Pelotas. No local foi construído a charqueada de Santa Tereza, nome dado em homenagem a sua esposa Thereza Pimentel Magalhães.

Em 1912, o Visconde decidiu transformar a charqueada industrial em matadouro frigorífico, devido a imposição do mercado internacional que exigia carne “in natura”. Mas seu plano logo fracassou devido a Primeira Guerra Mundial em 1914, que cancelou as exportações. Já no fim da década de 20 a charqueadas começavam a perder suas forças e com a morte do Visconde de Ribeiro Magalhães em 1926, a família se desfez do local.

Em 1963, já com administração da família de Rodolpho Moglia, a charqueada de Santa Tereza encerrou suas atividades. As charqueadas no Rio Grande do Sul contribuíram para o desenvolvimento industrial de nosso estado, fazendo parte de nossa história pampeana.

Referência bibliográfica:

FRANCHI, Diones. Personalidades das Ruas de Bagé. Exclamação Design e Comunicação, 2024
MAGALHÃES, Mário Osório. Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a história de Pelotas (1860-1890). Pelotas: EDUFPel: Co-edição Livraria Mundial, 1993.
DA FONTOURA MARQUES, Alvarino. Episódios do Ciclo do Charque, Ed. Edigal, 1987

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