Flintstones ou Jetsons? O paradoxo da modernidade e a busca pela saúde mental
Quando criança, na década de 1980, ao assistir aos filmes de ficção científica, era impossível não pensar em como seria o futuro. O desenho animado “Os Jetsons”, criado em 1962, retratava uma família que estava à frente do seu tempo, mais precisamente cem anos (em 2062), e mexia com a imaginação de muitas crianças através de suas engenhocas. Ele mostrava como seria o futuro: carros voadores, cidades suspensas, trabalho automatizado, robôs como empregados domésticos.
Nem todas as previsões se cumpriram, mas algumas já acertaram em cheio várias tecnologias do século XXI. Suas previsões mais famosas incluem chamadas de vídeo, tablets, robôs aspiradores e aspiradores de pó automatizados, relógios inteligentes (smartwatches), televisores de tela plana e até mesmo o conceito de turismo espacial. Eu acreditava que a tecnologia iria nos emancipar do trabalho, ou seja, permitiria trabalharmos menos e ter mais tempo para fazer somente aquilo que nos interessa: cuidar do jardim, tocar um instrumento, ler um livro, ou até mesmo para não fazer nada.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, em seu livro “Mentes Ansiosas”, nos provoca a pensar que as pessoas frequentemente se questionam sobre o paradeiro das projeções futuristas para o século XXI, que prometiam uma era de tecnologia avançada, menos trabalho, mais prazer, igualdade e conforto, com inovações como carros voadores e robôs. Contudo, a realidade frustra essas expectativas. Ao assistir a um filme ambientado nos anos 1920, surge um sentimento de nostalgia por uma vida que, apesar da simplicidade e da ausência de conveniências modernas, possuía um charme peculiar, levando à reflexão sobre se a vida de cem anos atrás seria preferível à complexidade e às pressões da vida atual.
Apesar da nostalgia, reconhece-se a impossibilidade de regresso, sendo o século XXI a nossa realidade inevitável. Paradoxalmente, a vasta disponibilidade de aparelhos e tecnologias que visam facilitar a vida e a rotina, desde eletrodomésticos a meios de comunicação e transporte, parece tornar tudo mais difícil. Essa avalanche de conveniências, somada à competitividade, à pressa, às exigências e ao consumismo desenfreado da sociedade contemporânea, sobrecarrega o cérebro com excesso de informação, resultando em sentimentos intensos de medo e ansiedade que, muitas vezes, ultrapassam os limites do saudável.
Será que para termos saúde mental deveríamos estar espelhando “Os Flintstones”? O desenho retrata uma família típica de classe média da década de 60, mas suas aventuras são ambientadas na Idade da Pedra. Eles utilizam eletrodomésticos que são uma mistura de tecnologia com artefatos de pedra lascada e dinossauros. E o mais importante: eles tinham bastante tempo para o lazer, aproveitando a vida com muitas atividades divertidas.
A pergunta que fica é: com toda a tecnologia à nossa disposição, estamos mais próximos da utopia futurista dos Jetsons ou, ironicamente, ansiamos por uma simplicidade que lembra a Idade da Pedra dos Flintstones, em busca de mais tempo e menos ansiedade?

