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Após três décadas ensinando capoeira, Mestre Biju retorna à sala de aula
por Redação JM
Depois de mais de três décadas ensinando capoeira nas periferias, nos quartéis e até fora do país, Ardenei Loreto Ferreira, conhecido como Mestre Biju, vive um momento que considera tão desafiador quanto simbólico: voltar à condição de aluno. Aos 56 anos, ele ingressou no curso de Educação Física da Urcamp, retomando um sonho interrompido na infância e reafirmando uma trajetória marcada pela educação como ferramenta de transformação.
A história de Biju começa longe das salas de aula. Filho de uma família marcada pela violência e pela perda do pai, ele cresceu em condições precárias, vivendo em áreas periféricas e enfrentando dificuldades que poderiam ter determinado outro destino. Foi nesse cenário que encontrou sua primeira grande referência: o Capitão Silvestre, que, ainda na década de 1950, transformou uma pequena estrutura improvisada em escola comunitária. “O que uma escola precisa? Um quadro e um mestre”, recorda Biju, ao resumir o impacto daquele homem que ensinava gratuitamente e distribuía livros a quem não tinha acesso.
A convivência com essa experiência plantou nele uma ideia que nunca mais abandonaria: a educação como missão. Nos anos 1980, já adolescente, encontrou na capoeira um caminho, inicialmente movido por desejo de luta, mas rapidamente transformado por um novo tipo de disciplina. Um professor lhe entregou um livro e exigiu leitura antes do treino. “Eu não quero formar lutador, quero formar professor”, ouviu. A partir dali, a capoeira deixou de ser apenas prática física e passou a ser ferramenta de consciência.
Biju começou a ensinar ainda jovem, em bairros periféricos, muitas vezes sem cobrar dos alunos. “Os que não pagavam eram os que nem eu, vinham da periferia”, diz. A proposta nunca foi retirar esses jovens de seus territórios, mas fortalecer o ambiente onde viviam. Ao longo dos anos, levou a capoeira para escolas, projetos sociais, quartéis e instituições públicas, sempre com foco na formação humana. Sem nunca ter tido emprego formal ou remuneração estável do poder público, sustentou sua atuação com base no voluntariado e em pequenas contribuições.
A trajetória ganhou novos contornos quando cruzou fronteiras. Convites surgiram e o levaram à Europa, onde passou por países como Holanda, Bélgica, França, Alemanha e Irlanda. Sem falar inglês, enfrentou barreiras, chegou a ser barrado na imigração e precisou recomeçar o percurso. Persistiu. Na Irlanda, encontrou espaço para desenvolver um trabalho que unia capoeira e educação. “Eles já tinham mestres, mas faltava conteúdo. Eu levei isso”, afirma.
Foi no exterior que percebeu a força cultural da capoeira como linguagem global. Alunos estrangeiros aprendiam português para cantar, adaptavam músicas brasileiras e se conectavam com histórias que, até então, desconheciam. Ao mesmo tempo, Biju também observava contrastes sociais. “Muito desenvolvimento material, mas uma pobreza espiritual grande”, resume, em comparação com o Brasil.
De volta ao país, acumulou reconhecimentos institucionais, convites para palestras e atuações junto a forças militares e projetos sociais. Ainda assim, manteve o mesmo princípio que herdou na juventude: agir onde o Estado não chega. Trabalhou com crianças, idosos e comunidades em situação de vulnerabilidade. “A palavra convence, o exemplo arrasta”, repete como lema.
Agora, ao ingressar na universidade, ele vê a oportunidade de formalizar um conhecimento construído na prática. “Passei 30 anos dando aula. Agora estou aprendendo a ser aluno”, diz. A adaptação não é simples, ele admite dificuldades, mas encara o processo como renovação. “Não é só ser mestre. É saber ouvir”, resume.
O plano é concluir a graduação e ampliar o alcance de seu trabalho, especialmente no atendimento a dependentes químicos e na criação de projetos estruturados de educação física com base social. Para ele, a capoeira continua sendo o eixo, mas não o limite. “Não adianta transformar o sistema. Tem que transformar o indivíduo.”
Ao olhar para trás, Biju não mede sua trajetória por bens ou estabilidade. Nunca teve carro ou emprego com carteira assinada. Mede pelo impacto. Pelos alunos formados, pelos projetos criados, pelas vidas tocadas. E pela pergunta que, segundo ele, orienta tudo: “que legado eu vou deixar?” Na resposta, ainda está trabalhando, agora, sentado em uma carteira universitária, recomeçando.

